Monday, October 14, 2013

não sou doce

Tenho choro fácil, me comovo rápido, mas não sou doce. Meu sorriso é aberto, me solidarizo no intervalo de um abraço, de um pedido de desculpa, mas não se engane, não sou doce. Mudo de lado diante das evidências, sou condescendente com erros, carinhosa com os meus, mas de novo, não sou doce. Insisto. Posso te apunhalar com uma mistura mortal de rancor e saliva do meu grito temperado com tudo que acredito e você me fez duvidar; com a festa que você faz e me convida apenas para ser razoável. Eu disse, não sou doce.

mãos sujas

O teclado é um buraco na terra vermelha. Posso, com ele, escolher as letras que quiser, reunir as palavras mais improváveis, cometer aquele crime mais temido. E começo. Aquela cretina cheirava a gasolina. Voltou a me ofender, e ria com os dentes amarelados, asquerosa. Xingava e dava voltas em si mesma, evocando o mau tempo, falando entre perdigotos. Meu desatino refletia no vidro da janela, latente, pulsando. Uma bomba prestes a marcar 00:00. Então ela bobeou, na sua ressaca cambaleante, alcancei a pá, em um golpe acertei o maxilar, de baixo pra cima, alguma coisa se desprendeu no impacto. Não parei pra ver. Já com ela na beira do buraco, só assoprei rindo o mesmo riso irônico que ela me dedicou. E meu sopro foi a medida certa para a empurrar terra abaixo e encontrar o fundo, num soco. Comecei a cobri-la com pequenos grãos e depois a terra já descia sozinha, treinada, adestrada. Ri alto de cima da minha montanha de ira. Então, cansada de tanto teclar, levanto do meu escritório asséptico em direção ao banheiro. Na pia, mão embaixo da torneira aberta, trechos de terra se desgrudam da minha pele revelando por baixo um rio seco de sangue.

a gata

ela chegou doentinha, lacrimejante. Lânguida, anda pelos cantos, se esgueirando, temendo. Mia baixo, é apenas um sopro de som. Preta dos olhos verdes, elegante. Então pula de assalto no meu colo e dali para o teclado, VFCSKNF%$#. Interrompe. Continua a escalada pela bancada, assiste à janela, dá meia volta e VFCSKNF%$# de novo. A cada dia, se fortalece, vem se refastelar de barriga pra cima, satisfeita. Boceja comprido, se estica toda, lambe a patinha, e olha pra mim com paciência, demorando. Força a testa contra minha barriga e torna a olhar, cobrando o afago atrasado. Miau

Friday, April 26, 2013

resoluções de meio de ano

resolvi voltar a usar óculos, cortar o cabelo curtinho e comer sorvete de morango. Mas parei de andar com lanterna no carro (porque perdi), ler livro antes de dormir (porque leio de manhã na bicicleta da academia) e desenhar com lápis de cor (porque aquela vontade foi embora). Em algumas coisas vou continuar exagerando: comprando muito em farmácia, fotografando demais e sonhando - acordada e dormindo - com a próxima viagem. Mas prometo que vou me controlar na hora de contar aquela história que eu vivi e que por achar tão demais, acabo dando ares superlativos a cada detalhe - apenas prometo. Devezenquandamente vou me permitir sonhar sem dormir e pagar muito por aquela peça de roupa que descobri que não posso viver sem. Exageros moderados.
Vou manter os hábitos saudáveis à mesa, escovar os dentes antes, durante e depois das refeições, e fazer os exames de rotina, que como toda rotina enchem o saco. Mas vou. E prometo também que vou deitar mais na rede sem o celular, para pensar em nada. Vou escrever mais, para concretizar toda insanidade que passeia pela minha cabeça, vou ver aquela série inteira de tevê e esquecer, de propósito, de fazer o jantar. Vou fazer tanta coisa mas preciso oficializar aqui para depois ter como justificar a razão pela qual estou fazendo: por que eu escrevi ué.

jantar de casa

Às 19 horas começo a fazer o jantar - de novo. Não sou tão forte quanto achava e estou cansada, o cheiro do arroz cozinhando me dá enfado. Os respingos da carne me irritam, me chateio com a pia cheia de louça. A casa inteira respira o jantar, desinteressada, indiferente. Meu zigzag na cozinha deixa algumas cascas de cebola pelo chão, percebo que estou capturada naquele lugar. Então ela me engoliu, a casa. A cozinha transformada num grande estômago e eu produzindo alimento sem parar, nada arrefece seu apetite. Na barriga dessa casa, me sujo, me esforço, suo ao calor, sou levada de lá para cá. Eu sou o jantar. Agora ela se acalma, saciada. Tudo, finalmente, está pronto. Das panelas limpas escorrem pingos de água e detergente, o mármore frio não deixa rastro de uso, o fogão está mudo. A casa me transporta para a sala quentinha. Hora da digestão.

o dia que não é meu

Tenho 15 anos. O dia tem muitas possibilidades, tudo me interessa, o futuro será o que eu quiser. Volto da escola e tenho 20 anos, me perco tentando encontrar retorno na Bandeirantes, na farmácia meu remédio pra gastrite está em falta e preciso juntar dinheiro para a formatura. Agora tenho 23, descubro que estou grávida meses antes da entrega do TCC, saio do ultrassom direto para a redação terminar a matéria de capa. Então com 25, casa própria, filha, carreira, marido, tudo meu, menos os dias que fazem comigo o que bem entendem. Acordo e tenho 36, mãe de duas crianças, preocupada com a entrevista que o presidente daquela empresa vai me dar e com a dor na coluna do marido. Reviro-me atrás de um sentido pra tudo, dar exemplo, ser tolerante, íntegra. Assopro as velas que marcam "45", a sala está cheia de sorrisos, eu estou cheia de sorrisos, quem me interessa está cheio de sorrisos. O dia começa a ter algumas possibilidades a mais, consigo desencaixar e encaixar uma coisa ou outra de lugar, mudar o horário, errar e ter tempo de consertar na sequência. Com 59 estou calma, resignada com minha ansiedade que desisti de controlar. Pego o dia e dou nome a ele, agora ele é meu, vou fazer - de novo - o que quiser com ele: "leveza" é seu nome de batismo. Esqueço de mim na janela, volto e ainda estou lá. Tomo sol, demoro no café da manhã, leio um pouco e depois releio a mesma página, gasto tempo no telefone. Faço 81 e o mundo tá todo aí ainda, as mesmas caras ao meu lado, o aconchego do cobertor me lembra o frio daquela viagem que agora retransmito aos netos, olhinhos atentos para as fotos em sépia. Espano o pó do álbum com minhas mãos de bisavó de 93, que continua adorando bolo de laranja, contar casos e espalhar flores pela casa. Só de um vício não me libertei: roubar revistas de consultórios.

Friday, November 09, 2012

festa de aniversário

tem balão que estoura ploc,
campainha, roupa nova,
"mais um aninho de vida",
aquele que atrasa,
máquina fotográfica que não para.

tem aniversariante ansioso,
pedaço de bolo pelo chão,
gargalhada, guardanapo, abridor de garrafa,
"que horas são?",
panelinha e panelão.

tem zunzunzun,
copo quebrado,
barulho de papel de presente,
cheiro de vela acesa no ar;
pia cheia de louça pra lavar.

tem "ah, não precisava",
música de fundo que ninguém ouve,
reencontro, bandeja, conversa interrompida,
celular que toca longe do dono,
perna cruzada.

tem pedido em segredo,
abraço sincero,
beijo melado,
porta aberta pro tchau.

tem comentário sobre a festa que passou,
arrumação na cozinha-tsunami,
sorriso riscado no rosto,
e luz apagada pro sono

Sunday, November 04, 2012

mudança

as caixas de papelão, marcadas com números vão ficando vazias à medida que os armários se enchem. A paisagem da janela chama atenção, a árvore tão alta. O sol que bate naquele chão faz um desenho engraçado, e por ele paro a caminhada contemplativa. O andar baixo me permite a indiscrição de ouvir a conversa do casal na entrada do prédio. Observo a maçaneta daquela porta que só abri duas vezes até agora. No banheiro, ainda tento encontrar uma lógica para guardar tantos frascos, e as meias na gaveta, e os brinquedos na prateleira e os álbuns no chão da sala.
Passam-se duas semanas e o desenho do sol no chão já não traz nenhum sentimento. Acostumei-me à novidade. Esta contestação, porém, me interrompe o passo.

retomada

"quanto tempo não te via por aqui", ela disse. É claro que o clichê pontuaria este diáologo que já começou errado. "Por que ficou tanto tempo longe?", perguntou. Respondi que não tinha razão para vir, não tinha nada a dizer. "Viesse mesmo assim, nós duas juntas encontraríamos assunto", argumentou incansável. Não queria, simplesmente, e não vim, pensei em dizer. Não sabia o porquê. Até que cheguei até aqui de novo, e me sinto bem.
"quanto tempo não te via por aqui", eu disse.

resgate

eles querem dez mil. Números dançam na minha cabeça enquanto calculo o quanto vale. Volto com uma contraproposta: pago oito mil. Negocio com os ladrões que levaram partes importantes da minha memória, aquelas que encaixam o roteiro das minhas histórias de criança, explicam o clímax de tantas lembranças, fecham os diálogos de vinte anos atrás. A dissolução de mistérios tão sutis está perto. Eles aceitam por nove mil. Negócio fechado.

rodízio

nesse dia sou eu que passeio, no seguinte é você. Eu compro, vejo, fotografo e converso, depois você, em seguida eu de novo.
nesse dia sou eu que presencio um atropelamento, que percebo a ausência de uma amiga, que choro sem papel. No seguinte é você. Eu sinto o frio, dou gorjeta a um medigo, sento e me deparo com a fila de carros, depois você, em seguida eu de novo.
nesse dia sou eu que irrompo em ressaca, vomito numa catarse de máquina-de-lavar, me perco na rua de casa, nego meu nome. No seguinte é você.
nesse dia não saio. Abro mão da minha placa.

insônia

todos dormem e eu aqui, mil pensamentos cansando a cabeça, contraindo meu maxilar. Aquele texto que não terminei, o telefonema que preciso dar, o leite que acabou... Uma ideia irrompe no meio da contemplação tirando o rumo do caos e me coloca no centro de uma série de ficção: e se tivesse cinco filhos?, e se morasse em Londres?, e se pulasse de asa delta?, e se fosse bailarina?, e se... O tempo passa e meu roteiro continua: e como seria?, que roupa usaria?, como seria meu cabelo?, meu humor?, meu tom de voz? Várias mulheres me cercam na cama me impedindo a entrada na vigília. E penso no dia seguinte, no telefone, no texto. Volta a bailarina, glamurosa, com tempo para fazer manicure; a aventureira ventando no céu com toda a vida lá embaixo. O leite interrompe o salto e me concentro no sono, no amanhã-nunca, na dureza de uma madrugada vivida em cada minuto. O medo da olheira me apunhala, relaxo, ligo uma aspirador de pó mental e todas aquelas mulheres são sugadas para o nada. Cabeça vazia, e no dia seguinte não consigo lembrar o exato momento em que cedi.

cinema em casa

apaga a luz, vem correndo e pula na cama. A sessão vai começar. Pipoca, coca, cobertor e controle da TV à mão. Na próxima hora a vida que não é a sua, um problema ou um prazer bem longe, numa rua de um país que você nunca esteve, aquele alguém que lembra alguém... As falas, as risadas, tudo ensaiadinho para te levar numa viagem calculada. Então vem a risada ou a lágrima pensadas por alguém ainda no roteiro um punhado de anos atrás. E você cai direitinho heim?

Thursday, May 31, 2012

o que levo daqui

o aconchego de vó, lembrança quentinha, pudim de leite. O abraço gordo, uma risada de bebê, a tarde na praia sem hora pra ir embora. Um só amor pra chamar de marido, a profissão suada, a correria que valeu a pena. Dois corações fora do corpo, crianças doces, e a sensação que fiz meu melhor, sempre. A casa bagunçada onde encontro tudo, a música em voz de mulher que acalma, um chá de camomila antes de dormir. O sono de domingo, a última página do livro, o "A" em matemática, o supermercado da semana em vinte minutos. Conquistas que comemoro com confete imaginário, todo dia um pouquinho.    

Friday, April 20, 2012

vaso de flor

em cima da mesa da sala um vasinho com flores brancas arranca um sorriso riscado do meu rosto. Passo pra lá, passo prá cá e meu olhar sempre acaba nelas. Como se sua única função nessa casa fosse agradar meus olhos.

Tuesday, March 27, 2012

leveza

penso que tudo, enfim, se encaixou. Não estou ansiosa. Não estou lutando contra. Não estou. Ao contrário de driblar o dia, acordei com a leveza um contrato assinado. Ela me serve diariamente e eu faço bom uso dela. Leveza.