Monday, December 26, 2011
palavra fora da cabeça
não encontro, não encontro. Como é mesmo? Minha cabeça trabalha, vasculha. Investigo cada cantinho da minha lembrança numa apuração exaustiva. Onde está? Parece que ela mergulhou pra fora de mim, a pesquisa não encontra nada. Mas não descanso, continuo a captura e de repente me esbarro com ela, a palavra que procurava: "arredia".
Thursday, September 15, 2011
asneiral florido
meu avô guardava em uma pasta etiquetada "Asneiral Florido" desenhos e cartas de filhos e netos, lembranças de viagens, pequenos objetos como o santinho da primeira comunhão, o laço da maternidade, uma conchinha da praia... Minha pasta virtual de asneiras, guarda, no lugar de desenhos e cartas, ideias e pensamentos que nem lembro que um dia tive. Mas que são gostosos de recordar.
olhos abertos
os dois olhos enormes do armário à minha frente me encaram. As duas portas fechadas, intercaladas por um vão que seria o nariz, os puxadores lá em cima, dois olhos enormes a me fitar. Devolvo o olhar, me impondo. A gaveta embaixo, uma boca muda, brava. O conjunto inanimado me observa endurecido. Eu saio caracoleando do quarto, matando de inveja o rosto enraizado.
Thursday, August 25, 2011
modorra
as paredes do meu quarto pedem "fica". As cobertas da minha cama pedem "fica". Só minha consciência parece discordar.
Tuesday, August 16, 2011
perspectiva
por cima do meu nariz, um facho de luz entra pela janela e atravessa o quarto. Minúsculas poeirinhas dançam no ar criando um cenário espacial.
Sunday, May 15, 2011
pirraça
você faz cara feia, bate o pezinho, ensaia um choro. Cruza os braços num clichê, dá pulinho. O canto do olho filma minha reação e como o "não" permanece, vá lá, melhor desmontar o teatro e seguir em frente.
Tuesday, April 26, 2011
extração
escrevo para tirar de dentro de mim, sem nenhuma pretensão de expor. Vasculho e vasculho mais um pouco, às vezes não encontro nada. E é pior assim. No novo dia, tento mais uma vez, investindo mais fundo. Arrisco uma nova abordagem, jogo a isca e puxo. Dias vem se debatendo, dias vem brando como se aceitasse a extração. Quando sento ainda não sei dizer se tudo se dará de forma perturbadora ou indolor. Mas sempre me levanto diferente.
areia de manhã cedo
meus pés encostam a areia da praia, sol nascendo. Cada grão geladinho, e cada pé afunda num granulado de farinha recém tirada da geladeira. Nessa hora não quero nada, só mais um passo.
olheiras
embaixo dos meus olhos uma mancha roxa denuncia, escancara. Evito o espelho. Maquiagem, descanso, simpatia, nada. Colada na minha pele, ela acorda e dorme, passeia, mergulha, viaja. Não arrefece. Quando todos se vão, fiel, ela fica.
aqui jaz
uma metade de mim está imóvel. Oca. Aos poucos foi se descolando, fibra por fibra se desgrudando de mim. E então caiu ao chão num ruído rouco. Interrompi a caminhada, voltei para olhar. Triste, me despedi, cavei uma cova e enterrei. Segui adiante.
Wednesday, January 05, 2011
colo
então você pede para sentar no meu colo enquanto eu escrevo no computador. E eu deixo. Então seu corpinho atrapalha meu acesso ao teclado e eu fico tentando encontrar as letras. E eu deixo. Então seu cheirinho de baunilha chega até meu nariz me fazendo esquecer o que era mesmo que eu tanto queria escrever. E eu deixo. Então você vira pra mim com esses olhinhos verdes de uva e me pergunta o que é isso. Então eu não deixo mais, te pego num acesso de cosquinhas e deixo pra bem depois o que eu tinha pra escrever.
chocolate
depois do almoço, abro o pacote cuidadosamente. Procuro o lugar mais calmo da casa, onde ninguém pode me flagrar e me rendo a um prazer escondido, marginal, quase clandestino. Dou mordidas econômicas para a felicidade em forma de chocolate durar mais. O cheiro macio gruda na mão, vira musse na minha boca e escorrega pra dentro de mim dando cambalhotas gaiatas. Quase posso ouvir suas risadas de dentes marrons.
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