Wednesday, September 30, 2009

breu

em frente ao túnel negro hesitou o primeiro passo. Lá dentro apenas o escuro. Entrou lentamente medindo sua influência, pisando de leve como se seu pé pudesse afundar o chão negro. Os olhos abertos ao máximo não captavam uma só luz, uma só cor, um só brilho. Apenas o nada, e o transparente em forma de preto cobria todo o seu mundo naquele pequeno espaço. Continuou andando, entrando cada vez mais fundo no escuro contagioso. Aos poucos seu corpo foi escurecendo também. Pedacinho por pedacinho acinzentando e escurecendo, por fim negra dos pés a cabeça, breu infinito.

Friday, June 26, 2009

filme

gravei minha vida toda. Agora posso rebobinar acelerado e reviver a pré-escola. Paro um pouco para editar as melhores partes. Posso adiantar para ver logo aquela cena tão querida; relaxo entre uma cena e outra, revejo, refaço. Posso também melhorar o áudio, a imagem, ajustar o brilho. Voltar e ir pro meu futuro apertando um botão. Ensaiar o discurso da negociação, repetir a cena e pausar naquela hora de maior suspense para ter tempo de pensar na melhor solução. Dá para fazer de tudo com essa vida gravada, menos viver o gosto da surpresa.

Wednesday, June 17, 2009

medo muda

meu medo antes era bicho papão. Vampiro, bruxa, homem do saco. Depois foi injeção, nota baixa. Aí veio a época dos "nãos", medo de não passar no vestibular, não encontrar a alma gêmea. Em seguida, medos "banais" de tropeçar no altar ou ver o extrato do banco.
Hoje, é assaltante, tratamento de canal, meningite infantil. Medos tão meus... que mudam comigo.

Thursday, April 23, 2009

nado

na piscina, uma reta à frente. Um braço depois do outro, a reta se abre, expande minha cabeça, as ideias começam a mergulhar soltas por ali, flutuam. Vou catando uma por uma com cada braçada e recoloco-as no lugar tendo certeza de que a touca está bem presa, sem folga para permitir novas fugas. Vou longe. Vou lenta, buscando alcançar a outra borda, percorrendo cada canto da piscina. Sem pressa.

Tuesday, March 17, 2009

livro velho

gosto do livro velho, aquele de papel amarelado, com orelhas, vincos, amassados, cheiros, respingos. Aquele que dá pra virar a capa inteirinha pra trás e ler com ele encaixado na mão, macio. Levar pra praia sem dó, esquecer embaixo da cama, meter na bolsa bagunçada, e ver depois que ele continua o mesmo, todas as letrinhas no lugar para compor a piração mais linda. Apenas marcado pelo tempo.

Wednesday, March 11, 2009

caixeira

vendo palavras, nem sempre as minhas. Pergunto, transcrevo, reporto, nem sempre a verdade. Negocio estas palavras, todas escritas, às vezes faladas, nem sempre pelo que valem. Se tornam minhas, guardo na caixa de luz para em seguida trocar uma por outra, num xadrez complicado. A mercadoria é entregue em blocos, as palavras entram em fila. E como vivesse em outro país, de moedas trocadas, a recompensa me volta em números.

Thursday, February 26, 2009

roupa suja

a sujeira não é visível, mas está lá, demarcando mangas, barras e golas. Em uma camisa a mancha discreta de um almoço, na calça cinza um rabisco de caneta que não sai.
Uma a uma, as peças vão entrando num pulo dentro da imensa máquina de lavar. São dez quilos de roupa. E então o sabão em pó, o amaciante, um pouco de alvejante. Ela aperta o botão e inicia a jornada, agora tudo vai rodar a mil por hora até formar uma sopa de espuma.
Toda sujeira do mundo sai de sua casa pelos canos invisíveis. Grudada ao vidro da máquina, ela admira a dança das roupas e imagina que prático seria se toda sua vida pudesse entrar ali com elas.